" Na minha cama " Leon Tolstoi
- dulcehorta
- Apr 21, 2024
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Um capítulo do Livro Memórias / Infancia Adolescencia e Juventude,
traduzido por Rachel de Queirós
" Como é que pude amar a Serioja durante tanto tempo, e com tanta intensidade,?" refletia eu, no sossego da cama. " Não. Ela não me compreendia, e nunca deu valor nenhum ao meu amor..." " E Sonitchka? Que encanto que ela é " _ " Queres? És tu que começas..." E procurava lhe reproduzir o rosto. Depois, cobrindo a cabeça com os lençóis, enrolando-os bem em torno de mim , para que não ficasse exposto ao frio, em lugar nenhum, estirei-me comodamente. Pouco a pouco um calor agradável me invadiu, e entreguei-me aos meus doces devaneios. Fixando os olhos nas dobras dos cobertores, via-a tão claramente quanto uma hora antes. Conversava com ela, e embora nossa palestra não tivesse nenhum sentindo produzia-me um prazer indescritível.
Tu, contigo, de ti, encontravam-se a todo instante . Esses devaneios eram te tal modo vivos no meu pensamento, que eu não conseguia adormecer, pois nem mesmo o sono poderia dissipar aquele torvelinho feliz. E quis partilhar o meu excesso de ventura com alguém . " Mimosa!" disse eu quase em voz alta, virando-me para o outro lado. _ Velódia estás dormindo? _ Não, respondeu ele em voz sonolenta . Que é ? _ Estou apaixonado, Volodia; inteiramente apaixonado por Sonitchka. _ Mas que é que eu tenho com isso? perguntou Volodia, espreguiçando-se.
Oh, Volodia! Tu não podes imaginar o que está se passando comigo. Ainda agora eu estava debaixo do cobertor, e via-a claramente, como se ela estivesse aqui. Até lhe falei. É espantoso. E queres saber mais? Quando fico deitado, assim como estou, e penso nela, Deus sabe porque fico triste e tenho vontade de chorar. Volodia fez um movimento. Só desejo uma coisa _continuei _é ficar sempre junto dela, ve-la sempre e nada mais. E tu? estás apaixonado? confessa com franqueza, Volodia. É estranho, mas eu queria que todo mundo estivesse apaixonado por Sonitchka, e que todo o mundo me confiasse.
Tens alguma coisa com isso? perguntou Volodia, virando o rosto para o meu lado. - Talvez. Tu não queres falar. Estás te escondendo, exclamei vendo-lhe os olhos brilhantes, vendo que ele não pensava em dormir e até empurrara os lençóis. - Vamos falar dela, por favor; não achas que ela é um encanto? Palavra, se ela me disesse:" Nikolenka, atira-te pela janela, ou atira-te no fogo, " juro-te que obedeceria imediatamente. - Oh, como ela é mimosa! acrescentei evocando a suave imagem , que continuava sempre diante de mim. E para melhor me comprazer no meu sonho, virei a cabeça para o outro lado e me enterrei no travesseiro. Estou com muita vontade de chorar, Volodia. _ Que bobo! disse ele, sorrindo.
E, depois de uma pausa. - Pois eu não sou como tu. Eu, se fosse possível , gostaria de ficar junto dela e conversar... - Ah, então tu estás apaixonado? interrompi-o. - E, continuou Volodia sorrindo com ternura, haveria de lhe beijar os dedinhos, os olhos, os labios, o narizinho, os pézinhos, beijaria tudo.... - Tolices ! gritei, por baixo dos travesseiros. - Tu não compreendes nada, disse Volodia com desprezo. _ Não? Eu é que compreendo, tu não compreendes coisa alguma - só sabes dizer tolices, repliquei , entre lágrimas. - Mas, não vejo razão para choro ! Ès igual a uma menina!!!





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